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ONE DAY AT A TIME e a ansiedade na vida das mulheres Alvarez.

Por Bárbara Herdy •
terça-feira, 16 de abril de 2019



One Day at a Time é uma série original da Netflix americana que aborda o cotidiano de Penelope Alvarez, uma ex militar e recém divorciada e agora cuidado dos dois filhos adolescentes, Elena e Alex. Descendente de cubanos, a sua cultura é presente no cotidiano e criação dos seus filhos, não só através dela, como da sua mãe conservadora, Lydia que vive com eles. A família tem a amizade de Schneider, o senhorio do prédio, podendo contar com ele para tudo nas suas vidas.


Na primeira temporada, a depressão é um dos tantos enredos abordados com maestria pelos roteiristas. Penelope demonstra os primeiros sintomas da doença e ela busca compreender o que está sentindo e através da sua experiência, ela desmistifica o espectro da depressão e inicia o tratamento com medicamento, mesmo sob o olhar ferrenho de sua mãe que, não acredita que o medicamento será a solução e considera as doenças mentais algo de pessoas loucas. Mesmo sem o seu apoio imediato, Penelope segue com o seu tratamento e, opta por não contar aos filhos sobre a sua condição por temer que eles sintam que ela não é capaz de criá-los. Sua mãe a apoia, mesmo que ela não concorde com a sua escolha, ela estará com ela nessa trajetória.




A terceira temporada dedica um episódio inteiro a Ansiedade. Um dos melhores episódios da série em termos de roteiro, interpretação e produção. Acompanhamos o dia de Penelope e os seus pensamentos que, pouco a pouco se tornam repetitivos e imaginativos e uma ignição para as suas crises de ansiedade. Isso é mostrado através de uma película em preto e branco, ao retornar ao que acontece de fato, a cor é devolvida a tela e o episódio inteiro segue com esse plano de edição que, dá um toque didático e ao mesmo tempo dramático para a situação. Essas situações são intercaladas com Penelope em um dos encontros do grupo de terapia, lá, ela divide com as outras mulheres as suas últimas crises e como ela tem tentado lidar com eles, através de respiração e meditação, mas que, muitas das vezes, ela precisa de ajuda externa para conseguir sair desse transe. Ajuda essa que vem das mensagens de cachorros vestindo perucas enviadas por Schneider.



Um dos pontos altos do episódio é acompanhar o relato de Penelope no grupo e a sua terapeuta indicar como ela pode melhorar os sintomas e o que é de fato, a ansiedade. Pela primeira vez, eu assisti um episódio tratando dessa doença separadamente da depressão, já que, normalmente, abordam o tema acompanhado da depressão e não como uma condição solitária. O didatismo sobre ansiedade funciona nesse episódio. Exposições como: a ansiedade é um desequilíbrio químico e é uma condição genética, podem soar mecânicas, mas funcionam por imprimir clareza ao telespectador. Isso fica mais claro quando Penelope comenta que sabe de quem ela herdou a ansiedade, da sua mãe, que é tão ansiosa que a coloca ansiosa também.

Logo, em sequencia, acompanhamos Elena ter uma crise ao sentir falta de ar, e com ajuda da mãe, ela consegue controlar e tem uma conversa com a mãe que, revela se tratar para depressão e ansiedade e explica aos filhos o que é ter ansiedade de um modo tão claro e delicado. Emocionante e tocante, é um episódio que aborda o tema com delicadeza, respeito e interesse em comunicar ao público o que é a ansiedade, os meios de tratar e como é a vida de quem tem essa doença.




Ao colocar as três mulheres Alvarez com ansiedade, a série mostra como nós estamos sujeitas a ter Ansiedade. É cientifico. Mulheres têm duas vezes mais ansiedade do que os homens (Fonte: https://super.abril.com.br/saude/ansiedade-e-duas-vezes-mais-comum-nas-mulheres-diz-estudo/) . Não podemos afirmar as razões para isso, até por quê a ansiedade é uma condição recente ainda pouco investigada pelos profissionais. O que podemos supor é que a ansiedade está ligada diretamente com o controle, o medo e a pressão.

As mulheres, no geral, são colocadas sobre pressão desde muito cedo, seja para ser uma boa filha, uma boa aluna, responsável, uma boa profissional, uma boa mãe, uma boa namorada/esposa. Mulheres não são criadas em nossa sociedade com a possibilidade de errar, diferente dos homens que são sempre vistos como meninos e garotos mesmo na casa dos quarenta anos.


Então, por conta dessa visão distorcida da sociedade, as mulheres acabam por se cobrar para ser algo que nós não somos condicionadas a ser. Ninguém é perfeito. Errar é uma constante da vida e uma necessidade para a nossa evolução de caráter, mas não é toda mulher que escuta isso dos seus pais e quando ela descobre que tudo bem errar, ela já passou por tantas coisas que o conceito de errar se torna algo inadmissível. Não tendo controle das suas ações, emoções e da vida, o medo nos assombra, pois nos tornamos incapazes de ter as rédeas de tudo que nos cerca, seja pegar o ônibus em um determinado horário ou entregar um trabalho na data prevista e gostando do que você produziu. O controle é o que nos sedimenta na realidade e nos dá segurança de que tudo ficará bem se você fizer tudo como pede o script. Se algo deslizar, a nossa tendência é pensar nos piores cenários e isso leva a pessoa com ansiedade a perder o controle das suas emoções desencadeando crises, como falta de ar e palpitações. Ao tratar das mulheres Alvarez com ansiedade a série informa o público em geral e mostra uma realidade que é gradativa em nossa sociedade: as mulheres sofrem mais com ansiedade, é hereditário e existe um tratamento eficaz.




Para quem tem ansiedade, saiba que o importante, além do tratamento é você estar preparado para se cuidar através do acompanhamento terapêutico. Apoio é uma necessidade incondicional e acima de tudo é você levar o tratamento a sério, ele leva tempo e difere de acordo com cada caso. Ter paciência, pois ansiedade não é como uma gripe que você cura em uma semana e acima de tudo busque ajuda médica. Dr. Google pode te informar, uma série pode abrir seus olhos para conhecer a condição, mas só um profissional pode te diagnosticar e medicar, por isso nos primeiros sintomas, busque conselho com um psiquiatra.

Um dia de cada vez não é meramente o título da série, mas também, é um lema para quem vive com a companhia da ansiedade e depressão. Viver um dia de cada vez nos leva a entender que não podemos controlar o mundo na ponta dos dedos. O peso sobre os nossos ombros pode ser suportado se carregarmos aquilo que suportamos e por mais obscuro que o nosso futuro pareça amanhã é um novo dia. As mulheres Alvarez não estão sozinhas e nem você.



Um beijo da Bárbara Herdy.

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